sexta-feira, outubro 13, 2006

Teseu na Pampilhosa


Táva o pessoal no Salta, naquela mesita de onde dá para ver as gajas boas que tiram fotos junto dos garrafões, quando nos apercebemos da chegada do Sereno. Era a vez dele pagar... portanto lá estávamos... quietos que nem cordeirinhos e rigorosamente a horas. Mas... ao invés de saltar fora do carro e vir a correr ter connosco o Sereno deixou-se ficar dentro da viatura a virar e a revirar papeis!... de longe, até quase que apostavamos que eram mapas de estrada... «deve estar á procura da localização de uma casa de meninas nova!» disse o Horácio. «Nãããã.... ele sabe de cor todas as localizações... não precisa de mapas para isso...» respondi eu.
Entretanto, reparamos numa coisa curiosa... na traseira do carro estava um estranho adereço: uma enorme bobina de fio de nylon... algo como um carreto de pesca, mas muito maior... quilometros e quilometros de fio de pesca... «Cum carago!... será que o gajo vai tentar pescar nos Açores e deixar a cana na Figueira?» peguntou o Cabana com os olhos esbugalhados. «Bom... o melhor é mandar vir uma rodadazita que aquilo ainda tá para demorar!...» disse o Horácio. «Salta?!... dá aí três carlos alberto... pra variar...» disse eu.
Estavamos nós, atentos á chegada das prometidas bejecas quando chegou o Conde no seu todo terreno e estacionou á frente do Sereno. O Conde... de seu nome Don Camillo Gracchius Lactus... é um dos poucos detentores de títulos nobiliárquicos que habitam nesta terra. Senhor de bons hábitos, comuns exclusivamente aos ricos como, as férias em lugares exóticos, cigarrilhas da marca cohiba, relógios e roupa de marca, gastronomia que passe primeiro pela triagem da confraria da Benda Noba, carros todo-o-terreno e música editada exclusivamente nos USA, acompanha tudo isto com uma boa disposição contagiante... algumas vezes como estratégia para que a sua face não revele o que realmente lhe vai na alma... enfim... um verdadeiro gentleman... daqueles que já só se podem encontrar na Riviera Francesa em pleno Agosto. Tendo feito fortuna no milénio passado, goza agora os rendimentos e a herança na mais bela terra do Mundo: o Luso!... Afinal ainda há nobreza nesta terra!... E ainda bem que é assim.
Mas o Conde, que normalmente não se dá com a plebe frequentadora do Salta porque são uns tesos, tem uma característica invejavél: O seu sentido de orientação!... Fruto das inumeras viágens a países exóticos, e em especial á Amazónia, o Conde consegui reunir um enorme número de conhecimentos que lhe permitem movimentar-se sem correr o risco de se perder... Uma verdadeira vantagem nos tempos que correm!... toma...
Saltando do seu veículo, dirigiu-se ao Sereno, que prontamente o cumprimentou. Não conseguiamos ouvir a conversa... mas era certamente alguma coisa relacionada com alguma viágem em terrenos dificeis... Sacaram de vários mapas, que estenderam em cima do capot dianteiro do carro do Sereno e, de uma bússola e um compasso de navegação... começando então a fazer medições.
Entretanto, a nós, só nos ocorria a frase: «Mas o que é que aqueles car**** estão a preparar?»... «Salta?!... mais uma rodada sff!»... pensavamos e diziamos nós à vez...
Já deviamos ir na décima rodada, portanto a começar a correr alguns riscos de alucinação, quando os dois começaram a discutir alto e a gesticular... algo se passava... o Conde, enervado com alguma teimosia do Sereno, dirigiu-se ao carro e voltou com a sua famosa maleta Luivitton... Abriu-a e, perante os olhos maravilhados do Sereno, sacou de uns binóculos, um sextante de navegação, uma faca de mato e uma coisita que parecia um misto de telemóvel e calculadora made-in-china... Entregou os adereços ao Sereno, despediu-se acenando com o braço e apontando para os artefactos, como que alertando para a sua boa conservação. Pôs o seu veículo em marcha e arrancou no meio de uma grande núvem de fumo negro, típico daqueles que usam o referido veículo para subir coisas mais altas do que passeios... emfim... há classe que não se aprende... nasce com as pessoas...!
O Sereno lá ficou em frente ao carro, a acenar com um cinéfilo adeus (daqueles que só na série Norte-Sul se viram) ao seu benemérito mestre. Quando o cavaleiro, atingiu por fim o pôr do sol e desapareceu no horizonte, lá começou o Sereno a arrumar a tralha: 18 mapas, 3 livros sobre orientação e restantes adereços!... todo o banco de trás do carro ficou de repente atulhado com coisas... mas o Sereno parecia visivelmente satisfeito... isso é que era importante... quanto mais satisfeito mais rodadas pagava... ora lá está...
«Atão pá?!»... perguntei eu quando ele finalmente entrou no Salta. «Estás a preparar alguma expedição?» perguntou o Horácio. «Vais para África???» perguntou o Cabana.
Fazendo o seu habitual ar de gozo, olhou para nós com aquele desdém gozão, como quem pensa «perdoa-lhes pai!»... e ... rodopiando sobre os calcanhares, disse «Salta?!!!... É uma rodada geral para todo o pessoal que está no café!». «Eu também?!» perguntou o Salta. «Claro!!... lá porque é raro pagares uma rodada, não quer dizer que não sejas um gajo fixe!» respondeu o Sereno.
«Ó pá... diz lá qual é o motivo de tanta satisfação?» insistiu o Horácio. «Prontos... tá certo... eu confesso: vou finalmente conseguir fazer a travessia da Pampilhosa sem me perder!... aquilo é um verdadeiro dédalo!... estou neste momento em condições de afirmar que consigo ir a Coimbra e voltar sem me perder no labirinto da Pampilhosa!» disse o Sereno desta vez com um ar triunfante... mas grave.
Bem... o café inteiro, atirou-se ao chão á gargalhada... o barulho era tanto que apesar de serem apenas cinco da tarde, já havia gente preocupada que alguém chamasse a GNR por causa do ruido... O Salta até telefonou ao amigo do costume.. não fossem as coisas dar pró torto...
Vermelhos, com lágrimas nos olhos e dores de barriga de tanto rir, lá tivemos de perguntar... «Então é para isso que levas ali aquela guita toda!!!... ahhhhh!!!». «Claro!!!... fio de nylon do melhor!!... é para atar aqui na estátua do Emídio e permitir não me perder no labirinto da Pampilhosa... depois é só mudar o carreto para a parte da frente do carro e ir enrolando de volta para conseguir voltar a casa direitinho!» explicou o Sereno e continuou «... e mesmo que algum maroto me parta a guita, tenho aqui os adereços que o Conde me emprestou - incluindo o GPS... hoje aposto que consigo ir e voltar sem ir á Mealhada!... toma!».«Vê lá se no meio do Labirinto ainda dás de caras com o Minotauro!»... disse o Cabana a rir. « OS Minotauros... OS Minotauros... porque há mais do que um, pá... os gajos reproduzem-se comó caraças na Pampilhosa» concluiu o Horácio com o ar grave, de quem estava verdadeiramente preocupado com a breve, mas certa, epopeia do seu amigo...

Comments:
Até eu ás vezes ando por lá ás voltas para tentar chegar a casa!

Mas o mais engraçado é quando resolvem trocar os sentidos das ruas sem avisarem ninguém. Quer dizer... eles dizem que os avisos estão afixados nos editais da Junta. E depois é ver os senhores das botas engraxadas à espera no fim da rua, pela qual acabámos de passar um sentido proibido. "Então mas o senhor não viu o sentido proibido? Anda a dormir? Vou ter que o multar!"

Não fazia mais sentido estarem no início da rua a avisar as pessoas que agora aquilo circula ao contrário!?

Se ao menos a Junta vendesse umas jolas eu até era homem para andar mais informado nestas coisas dos sentidos.
 
Tenho ideia que na Pampilhosa ainda se discute de há um dédalo... ou se mais vale a pena deda-lo... lololol
 
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